quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Felicidade por um Fio – Resenha Crítica do filme da Netflix

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Crítica: Felicidade por um Fio – altos e baixos de um filme sobre transição capilar

Os spoilers deste texto estão escondidos, clique nos botões para revelar o texto completo caso já tenha assistido o filme. Consideramos spoilers apenas a discussão de cenas específicas, obviamante falaremos das linhas gerais do filme sem a tag de spoiler.

Muita gente viu nos últimos dias o novo lançamento da Netflix: Felicidade por um Fio.

O filme foi baseado no primeiro livro da série da autora Trisha R. Thomas chamado Nappily Ever After (um trocadilho que transformou a forma em inglês do “felizes para sempre” em “Crespos para Sempre) e fala da jornada de uma mulher em busca de si mesma e de seu cabelo natural.

Hoje, o Cabeleira em Pé conta com a colaboração da Mille – do Canal Diário de Mille – para discutir alguns pontos da história, uma crítica do filme para convidar vocês a debaterem um pouco sobre ele conosco.

Antes de mais nada, precisamos dizer que gostamos muito deste filme da Netflix e recomendamos ele em especial para quem quer passar, está passando ou já passou pela transição capilar. A história faz um bom trabalho ao retratar diversos dilemas inerentes a esse processo, criando um clima que facilita a identificação. Estes impasses não são apenas nossos: não estamos sozinhas.



A narrativa de Felicidade por um Fio é dividida em capítulos e cada título corresponde à uma fase na qual se encontra a protagonista (chamada Violet), interpretada por Sanaa Lathan - da quarta temporada de The Affair.

Mas o filme não é (nem poderia ser) perfeito, se apoiando muito em uma dicotomia que coloca o cabelo liso em oposição aos cabelos cacheados e crespos. Sabemos que a voz por trás do discurso que pavimentou essa dicotomia perfeito x imperfeito dentro do filme é real e lidamos com ela diariamente na mídia, na rua e, muitas vezes, até dentro de casa. Porém, o filme não rompe com esse padrão, ao contrário, o reforça, utilizando o discurso de auto-amor - que é muito válido, sempre - mas, nesse caso, é usado explorando essa dicotomia entre cabelo perfeito e imperfeito.

Assim, a textura do cabelo não liso aparece no filme como uma imperfeição a ser aceitada, mas a premissa é incorreta: os nossos cabelos crespos, cacheados e ondulados não são imperfeitos.

Vamos falar um pouco mais dessa história? Então, segue a leitura com a gente!


O Big Chop: Uma crítica a Felicidade por um Fio




Muitos dos pontos polêmicos de Felicidade por um Fio, têm a ver com o Big Chop da protagonista.

Big Chop é aquele grande-corte feito para retirada dos fios alisados, o corte que abre espaço para que se possa ter a curvatura dos cabelos que passam a nascer com sua textura natural.

A cena do big chop levanta algumas críticas pois o corte é feito no susto, num ímpeto, e ainda que tenha transparecido parte da insatisfação e inquietude da personagem em relação ao seu cabelo e aparência, não é assim que gostaríamos de ver retratado esse ponto tão importante na trajetória de alguém que decidiu assumir seu cabelo natural.



Não questionamos nesta resenha crítica a possibilidade de cenas assim acontecerem na vida real, mas acreditamos que estes movimentos impulsivos devam ser exceção. Decidir assumir o cabelo natural costuma - e deveria - ser um movimento consciente, inclusive para haver menos chances de arrependimentos - como parece acontecer com a personagem em determinado momento do filme.

Quanto mais consciente for essa decisão do grande corte, mais fácil se torna a adaptação aos cabelos curtos, principalmente para mulheres que passaram a vida toda utilizando os fios em comprimentos médios e longos.


Felicidade por um Fio: Erros e acertos ao lidar com Estereótipos





Vários arquétipos são levantados e questionados durante este filme da Netflix e podemos perceber que muitos deles giram em torno dos cabelos da Violet. A filha "perfeita" que está sempre arrumada; a profissional bem-sucedida que possui tudo "sob controle"; a esposa troféu do homem bem-sucedido; a imagem de mulher bem resolvida e desejada; etc..

Tudo no filme remete a esses estereótipos que o cabelo liso proporciona à Violet, que mais tarde será em parte questionado pela própria personagem e que também acaba levando a quem vê o filme a questionar igualmente como se enxerga e é enxergado a partir da sua própria aparência.



O filme Felicidade por um fio também brinca diversas vezes com estereótipos para falar de conceitos pré-estabelecidos.




A figura Masculina como Arquétipo do Mentor





Outro ponto que pode perturbar é que os pontos de reflexão sobre o cabelo natural são trazidos por figuras masculinas: primeiro pelo pai, depois pelo cabeleireiro.

Não há nada de errado em ter homens dentro do movimento de aceitação e celebração do cabelo natural, é importante que eles amem seus cabelos também.

Entretanto, pelos homens não passarem pelo mesmo estigma social pós-big-chop enfrentado por mulheres de cabelos curtos, a figura masculina de mentoria no processo de transição parece irreal.

Além disso, o movimento pelos cabelos naturais surgiu entre mulheres, feito por mulheres para outras mulheres. Por esse motivo queríamos ver uma mulher levando Violet à reflexão sobre seu cabelo natural. Fortalecer esse movimento de sororidade através do filme seria incrível.



Fica reforçado nestas interações de mentoria o estereótipo já discutido na seção sobre Big Chop: de que a mulher precisa de um mentor masculino para tomar boas decisões. Por que usar esse ponto clássico da jornada do herói de Campbell (o encontro com o mentor) ao invés de usar a figura feminina de auxílio proposta na jornada da heroína descrita por Murdock? Uma mulher ajudando outra mulher... seria difícil retratar isso?


O momento Hey Criança Negra neste filme da Netflix








Balanço final: Um filme por um fio





Já falamos nesta crítica de pontos altos e baixos de Felicidade por um Fio e de longe um de seus maiores méritos é aproximar essa experiência de um público maior, que pode – através da história de Violet – se identificar ou empatizar com alguém que está passando pela transição capilar.

O filme levanta questões críticas de preconceito contra a mulher no ambiente de trabalho, a pressão social e da mídia envolvida no alisamento dos cabelos cacheados e crespos, além do dilema enfrentado por algumas mulheres que vêem seu processo de autodescoberta sabotado pelo parceiro.

Mesmo com clichês e alguns escorregões, Felicidade por um Fio traz uma mulher careca e linda protagonizando um filme! Mostra Violet trocando o alisamento por cuidados mais naturais e reforça o nosso discurso diário: sua atitude sobre si mesma fala muito sobre como as pessoas te enxergam!

As últimas cenas fecham um círculo para Violet, ela se liberta das correntes que a aprisionam vivendo uma situação muito parecida com aquela que viveu durante sua infância e quem passou pela transição certamente relembrará aquele momento em que se sentiu livre pra andar na chuva, mergulhar no mar e lavar o cabelo quando bem quiser.

Concomitantemente a tudo isso, ver a evolução da personagem em cenas leves e delicadas, situações cômicas e reflexões sobre padrões que enfrentamos todos os dias feitas de forma tão sutil e terna, faz do filme uma ótima escolha à qual podemos recorrer sem medo, pra ter uma daquelas sessões pipoca e brigadeiro deliciosas com as amigas.

Não queremos finalizar essa discussão aqui... O debate continuar: Quem aqui viu o filme? O que acharam da história? Agora é hora da crítica de vocês, use o espaço dos comentários abaixo e solte o verbo nas redes socias do Cabeleira em Pé e do Diário de Mille, tem alguma #GarotaDoDiario aí?

Não podemos deixar de agradecer à Mille pelo olhar doce e apurado - foram as discussões com ela que possibilitaram a construção conjunta deste material. Gratidão!

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